Monografias | A importância do ato de tocarA importância do ato de tocarResumen: O ato de tocar é um comportamento que pode conter alguns elementos fundamentais para o desenvolvimento do ser humano, principalmente as crianças, desde a vida intra-uterina, proporcionando bem estar físico, emocional e social. A qualidade do toque na vida infantil pode gerar tendências positivas no decorrer do seu crescimento, levando-a a formação de uma personalidade terna e amorosa. The act of touching is a behavior that can
contain some basic elements for the development of the human being, mainly the
children since the intrauterine life giving them emotional and social welfare.
The touch' s quality in the
infantile life can generate positive trends in elapsing of his growth, taking
him troughout a formation of a tender and loving personality. Introdução Este
trabalho apresenta algumas idéias acerca da importância do ato de tocar, desde
os primeiros e fundamentais momentos de nossa existência e dentro do processo
do viver, continuamente, atribuindo a este contato o valor extraordinário de
desenvolvimento que lhe é pertinente, físico, emocional e social.
A
pesquisa histórica bem ilustra o quanto se perdeu por tanto tempo na não
observância deste elemento colaborador: o toque. Contudo, ao tomarmos contato
com os levantamentos já realizados, nos surpreendemos, a ponto de estimular a
nossa vontade de enriquecer as nossas vidas através do simples comportamento de
tocar cada vez mais o outro, com carinho e amor. A
importância do toque Conforme
Montager (1988) no século dezenove, uma grande quantidade de bebês morria
durante o primeiro ano de vida, geralmente de marasmum, (do grego: definhar). Na
década de vinte nos Estados Unidos a taxa de mortalidade para bebês com menos
de um ano em diversas instituições e orfanatos era muito próxima a cem por
cento. Em
1915 o Dr. Henry Dwight Chapin, um pediatra famoso de Nova Iorque, relatou
assustadoras informações sobre bebês com menos de dois anos de idade que
morriam, excluindo uma única instituição que não seguia esta regra. Dr.
Chapin introduziu o sistema de externato para os bebês do orfanato, ao invés
de deixá-los definhar na aridez emocional das instituições. Foi contudo, o
Dr. Fritz Talbot, de Boston, que trouxe a idéia do "Cuidado Terno,
Amoroso", que ao visitar a Alemanha, após a Segunda guerra mundial, ficou
muito impressionado ao observar na clínica de crianças em Dusseldorf que
mantinha um padrão de higiene e beleza para acomodar as crianças, mas que
apesar disto, quando uma criança não respondia aos tratamentos médicos; esta
era entregue aos cuidados de uma ama, que cuidava dos bebês com carinho e os
mantinha próximo ao seu corpo, promovendo na maioria dos casos a recuperação
destes. Em
pesquisas realizadas após a Segunda guerra mundial, ficou evidente que a causa
do marasmo estava relacionada à falta de amor e no tocar as crianças. Tais
evidências se apresentavam por meio de crianças que conseguiram superar as
dificuldades de privação material, mas que por outro lado, recebiam amor de mãe
em abundância, e, em contrapartida, lares e instituições considerados
“favoráveis”, do ponto de vista de recursos materiais, porém, onde a mãe
não era boa, apresentaram o marasmo. Através dos resultados das pesquisas
percebeu-se que para as crianças se desenvolverem bem, elas precisam ser
tocadas, acariciadas, levadas no colo, conversar carinhosamente com elas.
A criança resiste à ausência de muitas outras coisas, desde que exista
o toque amoroso. Supõe-se
que para o bebê pequeno, segundo Montager (1988) o mais importante são as
sensações da pele e a sensação cinestésica (sensibilidade aos movimentos)
e são acalmados
prontamente com palmadinhas leves e com calor, e choram em resposta a estímulos
dolorosos e ao frio. É
por meio de seus receptores localizados nas articulações musculares que o bebê
recolhe as mensagens, a respeito do modo como o pegam, mais do que apenas a
pressão exercida sobre a pele, que lhe transmitem o que sente por ele a pessoa
que o está carregando. O
bebê discrimina adequadamente, de forma parecida ao adulto, o caráter de uma
pessoa a partir da qualidade do seu aperto de mão. Os
bebês nascem com este sentido cinestésico e, se levarmos em conta as experiências
pelas quais passam em seu início de vida; podemos inferir sobre a idéia de que
uma parte do modo como o comportamento se coloca corporalmente se devem à
estimulação exteroceptiva da pele; por eles percebidos. Tocar
e sentir Observar,
ver é uma forma de tocar a distância, mas é por meio do tocar que verificamos
e confirmamos a realidade. O tato atesta a existência de uma realidade
objetiva, no sentido de que é alguma coisa fora, que não eu mesma.
As pontas dos dedos do bebê lhe fornecem a existência de um universo,
levando-o ao desenvolvimento da consciência de seu próprio corpo e o da mãe,
constituindo o seu meio primário e fundamental de comunicação; a sua forma de
entrar em contato com outro ser humano, estabelecendo-se ai a gênese do toque
humano. Os
bebês sempre emitem comportamentos com a finalidade de manter o seu contato com
a mãe. Quando o bebê é frustrado nesta busca de contato acaba por valer-se de
outros recursos, tais como chupar seus dedos, agarrar parte de si mesmo, balançar-se.
Estes comportamentos são uma regressão à estimulação pelo movimento passivo
que experimentou na vida intra-uterina. Os seres humanos se tornam adultos
ternos, amorosos e carinhosos a medida em que recebem muitos cuidados em seus
primeiros anos de vida. O
valor da massagem A
massagem é uma forma ampliada de tocar com qualidade, proporcionando descanso
em partes ou no corpo todo. A massagem é bastante adequada aos bebês, uma vez
que saíram de sua posição fetal e precisam alongar os seus músculos, abrir
as juntas e coordenar seus movimentos, habilitando-o melhor para as habilidades
físicas. Ela ainda beneficia a freqüência cardíaca, a respiração e a
digestão. As
mães encontram ganhos positivos nestes contatos, a exemplo da ajuda que ocorre
na secreção de “hormônio da maternidade”; a prolactina, que auxilia na
produção de leite e na capacidade de relaxar. As mães acabam se sentindo mais
seguras através da percepção de sua capacidade em proporcionar benefícios
para o bebê, obtendo deles boas respostas. Shantala
é o nome da técnica de massagem para bebês usada há milhares de anos na Índia.
Foi o Dr. Frederick Leboyer, obstetra francês que observou, em Calcutá, uma mãe
massageando seu bebê e trouxe ao mundo ocidental tais informações. Encantado
com a força do momento, batizou a seqüência de movimentos com o nome daquela
mulher: Shantala; que é uma arte de dar amor e uma técnica O
toque na vida social e afetiva do bebê na visão Piagetiana Rodrigues
(1989) nos diz a respeito do período "sensório-motor" de Jean
Piaget, “na vida social e afetiva do bebê de 0 a 2 anos de idade, onde há os
sentimento interindividuais – Com o domínio da noção de objeto permanente,
há uma separação do eu corporal, em relação ao outro, dando início a um
sistema de trocas sociais e afetivas. Essas trocas, porém, não são
genuinamente sociais, pois são calcadas, sobretudo, na imitação de gestos.
Assim, a imitação do ato da mãe de tocar o rosto do bebê gera-lhe prazer e
leva a criança a repetir este gesto na própria mãe.” De
acordo com Bee (1997) o contato imediato após o parto parece aprofundar a
capacidade de a mãe (e talvez também do pai) responder em relação ao bebê.
Alguns psicólogos acreditam que a capacidade de formação de vínculo social
é resultado da maturação e que deve ocorrer algum relacionamento logo no início
da vida da criança se quiser que esta seja capaz de, mais tarde, formar vínculos
significativos. Os
bebês têm que sugar com vigor para que o leite continue a ser produzido em boa
quantidade. As mães devem ter o desejo de amamentar. Uma mãe que amamente por
sentir que deve e não porque o queira irá sentir-se tensa. Quando as mães se
acham perturbadas, os bebês também mostram sinais de aflição. Por outro
lado, os bebês de mães tranqüilas tendem a ser calmos. A saúde emocional da
mãe e do bebê é mais bem proporcionada por tudo que gere maior prazer entre
ambos. O
bebê sinaliza as suas necessidades por meio do choro ou do sorriso, reagindo
conforme os pais respondem aos seus apelos, levando-o ao colo, acalmando-o. Tais
comportamentos são fundamentais para a formação de vínculos e
estabelecimento de elo afetivo familiar, que é uma segunda etapa, posterior ao
contato inicial pós-parto.
Com relação a bebês prematuros e com baixo peso, que correspondem a
vinte milhões do nascimento anual no mundo, um terço deles morre antes de
completar um ano de vida. Tal fato levou muitos estudiosos (Charpak, 1997) a
pesquisas e discussões permanentes, obtendo respostas que sinalizam o contato
da pele entre o bebê prematuro e sua mãe; o que se denominou de método “Mãe
Canguru“ representando um modelo eficaz de atendimento a este bebê com relação
à melhoria da qualidade de vida. O recém-nascido é retirado da incubadora e
permanece junto ao colo da mãe, com a cabeça encostada no seu coração,
favorecendo os batimentos cardíacos, a temperatura e a respiração. Além de
manter o bebê inclinado, impedindo o refluxo do alimento para o pulmão e
permitindo um maior contato com a mãe, viabilizando o aleitamento materno, que
alimenta o bebê e protege-o contra infecções. Na
visão de Winnicott (1993) encontramos que a capacidade das mães em dedicar a
seu filho toda a atenção que ele precisa, atendendo suas necessidades de
alimentação, higiene, acalanto ou no simples contato sem atividades, cria
condições necessárias para a manifestação do sentimento de unidade entre
duas pessoas. Da
relação saudável que ocorre entre a mãe e o bebê, constitui-se a
subjetividade do sujeito, conforme Winnicott (1999), ao se referir ao
desenvolvimento emocional-afetivo da criança. No primeiro ano de vida, o bebê
mantém uma relação visceral com a mãe, onde ele a considera como uma extensão
de seu próprio corpo, até acontecer à divisão do “não-eu” e do “eu”
do bebê. Para que haja uma boa formação psíquica deste bebê, é preciso que
esta mãe e o ambiente que lhe cerca sejam suficientemente bons, Winnicott,
evitando assim “falhas” ou carências, que podem gerar grande ansiedade, que
por sua vez, pode comprometer a constituição da sua subjetividade. Encontramos
ainda em Winnicott (1982) que, a mãe, ao tocar, manipular o bebê, aconchegá-lo,
falar com ele, acaba promovendo um arranjo entre soma e psique e, principalmente
ao olhá-lo, ela se oferece como espelho onde o bebê deve se ver. A forma como
esta mãe olha o bebê (expressão facial) devolve a ele a sua imagem corporal,
como forma de comunicação. O
ato de tocar se insere em alto grau de importância desde a convivência
gestacional e posterior a ela, onde o contato da mãe com o seu bebê; já
implica em momentos favorecedores na formação da criança.
O toque imediato após o parto, estabelecendo o vínculo entre mãe e bebê;
o toque na amamentação, gerando trocas positivas entre ambos, e evitando a
tensão que possa ocorrer conforme o estado emocional presente, e ainda, a geração
de bem estar na mãe, ao perceber o tipo de ajuda favorável que oferece ao seu
filho. Encontramos também o valor do contato entre mãe e bebê prematuro
assinalado no método Canguru, o qual demonstra os benefícios obtidos deste
tipo de relação inicial. No
campo físico, o tocar viabiliza o bom funcionamento da respiração e digestão,
entre outros pontos. No desenvolvimento psíquico e social fica evidente a relevância
do tocar, principalmente se através dele, é possível estabelecer um vínculo
melhor entre a mãe (ou quem cuida) e o bebê, gerando assim uma tendência na
criança, de criar e manter outros vínculos mais seguros ao longo de sua vida
social. O bebê, por encontrar um contato desta magnitude em sua formação
inicial, vai formando uma personalidade sadia e percebe o mundo de forma agradável,
sentindo-se aceito e bem quisto com o passar do tempo, formando então, uma boa
auto-estima, instrumento imprescindível na conquista do mundo que vai se
desvelando conforme avança em seu crescimento e na manutenção das relações
que vai estabelecendo com as outras pessoas. A
comunicação é fator relacionado ao tocar, uma vez que o bebê percebe, por
meio de respostas de contato com o outro, a forma como é tocado, mediante os
seus apelos de cuidados. O contato
da relação proporciona as impressões de comunicação dos dois lados: mãe e
bebê, os quais, acabam interagindo, cada vez mais, conforme avançam nesta
troca, levando, conseqüentemente, a constituição do sentimento de unidade. Encerramos
este trabalho, certos de que há a necessidade de tocarmos com carinho os bebês
no cotidiano e, conseqüentemente, a criança que se desenvolve posteriormente.
É possível ainda compreender, dentro da perspectiva de contínuo
desenvolvimento, que o tocar é importante para o jovem, o adulto e o idoso, que
são apenas um ser humano, em suas diferentes dimensões com relação ao tempo.
Este tocar carrega em si numerosos benefícios em forma de estímulos que geram
um melhor desenvolvimento físico, emocional e social, potencialmente gerador de
uma personalidade terna e amável no adulto posteriormente. O que talvez esteja
emperrado no momento seja a falta de hábito e não, pura e simplesmente, o
desconhecimento sobre o tema e suas conseqüências. O trabalho necessário por
hora é o de agregar estas duas informações, uma teórica (informação) e
outra prática, despertando a necessidade do hábito (o tocar), aumentando a
chance das crianças quanto a um melhor desenvolvimento.
BEE,
Helen. O ciclo vital. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1997. CHARPAK
N, Figueroa Z, Hamel A. El Método canguro. Colombia Bogotá:
Interamericana-McGraw-Hill, 1997. FARIA,
Anália Rodrigues. O desenvolvimento da criança e do adolescente segundo
Piaget. São Paulo: Editora Ática, 1989. MONTAGER,
Ashley. Tocar: O significado humano da pele. São Paulo: Editora
Summus, 1988. WINNICOTT, Donald Woods. O
ambiente e os processos de maturação.
Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, 1982. ________.
Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes, 1999. ________.
A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins
Fontes, 1993. *
Armando Correa de
Siqueira Neto é psicólogo e psicoterapeuta; desenvolve projetos e trabalhos
para crianças e adultos, tendo por enfoque o autodesenvolvimento e a psicologia
preventiva. E-mail: selfpsicologia@ig.com.br Publicación enviada por Armando Correa de Siqueira Neto Contactar mailto:selfpsicologia@ig.com.br Código ISPN de la Publicación EpZVApkAEFnqWJenAp Publicado Wednesday 4 de February de 2004 Ultimas Publicaciones en ilustrados.com
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