Inscríbete en nuestro boletín







Monografias | Justiça: culpa, punição e desenvolvimento

Justiça: culpa, punição e desenvolvimento

Resumen: O aparelho psíquico demonstra possuir um sistema auto-regulador, cujas funções visam os ajustes do desenvolvimento humano por meio da justiça. Tal sistema acontece de forma natural e quase que em total inconsciência de nossa parte em virtude de nosso estágio de evolução e falta de visão sobre tal ocorrência.

Publicación enviada por Armando Correa de Siqueira Neto




 


Resumo

 

O aparelho psíquico demonstra possuir um sistema auto-regulador, cujas funções visam os ajustes do desenvolvimento humano por meio da justiça. Tal sistema acontece de forma natural e quase que em total inconsciência de nossa parte em virtude de nosso estágio de evolução e falta de visão sobre tal ocorrência.

Estas funções auto-reguladoras se assemelham a alguns papéis criados pelo próprio homem em sua objetividade materialista, onde nos colocamos em situação de acusação por algo que pensamos ou fazemos, causando-nos conflito pelos valores por nós introjetados desde a infância, e por outro lado, a nossa própria defesa, baseada na originalidade do que somos enquanto espécie animal em desenvolvimento, e, a sentença a que nos imputamos como resultado final deste “julgamento” que é a forma, muitas vezes possível, de nos redimir e retomar o nosso caminho original rumo a evolução.

 

Summary

 

The psychic device demonstrates to have a self-regulating system, whose functions aim at the adjustments of the human development by the way of justice.

Such system occurs in a natural way and almost in total unconsciousness of our part due to our peculiar probation of evolution and lack of vision on such occurrence.

These self-regulating functions are similar to some roles created by the proper man in his materialistic purpose, where we place ourselves in a situation of accusation for something we think or we make, causing us conflict by the values projected to the inside since infancy, and, still, our proper defense, based on the originality of that we are while an animal specie in development, and, the sentence we impute to ourselves as a final result of this judgement which one is the form, many times possible, to redeem ourselves and to retakie our original way .

 

Palavras-chave: justiça, auto-regulação, neurose, narcisismo, masoquismo, controle, desenvolvimento.

Key-words:  justice, self-regulation, neurosis, narcissism, masochism, control, development.

 

 

 

Introdução

 

            Pensando profundamente sobre culpa e punição surgiu a indagação: Se a justiça divina nasce a cada necessidade inerente ao seu papel ou se ela está presente naturalmente como essência humana, será Deus, o criador de tantas belezas, autor do sofrimento reparador, sendo aquele que a tudo sabe, podendo fazer um registro de cada pensamento e ato feito por nós, suas criaturas, e assim, aplicar as suas próprias leis? E o que fazer com a sensação de quando não vemos justiça alguma, e ficamos temerosos e descrentes com o que nos resta: a frágil e limitada justiça dos homens?

            Foi a partir deste questionamento que a investigação apontou novas perguntas, aumentando a necessidade de compreender, experiências boas e ruins pelas quais passamos. O que nos faz viver de uma forma ou de outra, levando em conta, o fato de que em muitas ocasiões, fatores alheios a nós, modificam o rumo ou o tipo de vida que levamos? Até onde temos poder para influenciar as decisões sobre os nossos passos? As pessoas causam algum efeito em nós? Por que sentimos que em algumas ocasiões estamos pagando por algo que nem sequer fazemos idéia? Quem ou o que nos coloca em circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis, onde o fluxo das coisas parece ir bem, e às vezes, que estamos em seu sentido contrário? Nos causando tristeza, raiva, depressão e descrença para com a vida e, em muitos casos, com o Criador dela. Quantas vezes tivemos que lidar com fatos desastrosos e de longa permanência em nossa vida, e nos perguntamos sobre quanto de nossa responsabilidade dizia respeito. Situações conflitantes que nos colocam em dificuldades. Promessas e amizades com as quais construímos nossas esperanças mais íntimas, e, no entanto, vamos ao encontro de decepção, frustração, dívida, tristeza, desestruturação emocional, e tantas coisas.  A pergunta mais comum e freqüente é: - O que eu fiz para merecer tais coisas?

 

A compreensão de justiça

 

Encontramos na filosofia alguns pensadores que nos fornecem amparo relacionado ao conceito de justiça. Dentre eles podemos citar Aristóteles (1985), cuja definição vem a ser que a justiça participa da razão prática, sendo o seu estudo pertencente ao campo das ciências práticas, guardando relação com a ação, e não com a teoria. É algo que se pratica, mais do que se pensa. Para tanto se faz necessária uma forte aderência da vontade de quem a pratica.  Aquele que pratica atos justos não necessariamente é um ”homem justo”; pode ser um “bom cidadão”, contudo, jamais será um “homem justo” ou um “homem bom” de per si. O “bom cidadão”, se a sociedade desaparecesse, nada levaria consigo se não a consciência livre de ter cumprido seu dever social. O “homem bom” é, ao contrário, por si mesmo, independentemente da sociedade, completo em sua interioridade; a justiça lhe é uma virtude vivida, por meio da ação voluntária. Daí falar-se que a moral (agir voluntário) não se confunde com o direito (agir de acordo com a lei), e que a voluntariedade é o distintivo neste meandro.

No campo da moral, Tomás de Aquino (1996), é essencialmente intelectualista. A ordem moral, pois, não depende da vontade arbitrária de Deus, e sim da necessidade racional da divina essência, isto é, a ordem moral é imanente, essencial, inseparável da natureza humana, que é uma determinada imagem da essência divina, que Deus quis realizar no mundo. Desta sorte, agir moralmente significa agir racionalmente, em harmonia com a natureza racional e própria do homem.

            Na visão de Thomas Hobbes (2002), o homem tende para o individualismo, visando somente seu próprio bem para assim viver confortavelmente. Submetido ao determinismo de suas paixões, o homem é arrastado a conseguir seu próprio bem, sua conservação, seu prazer, o seu bem-estar e glória.

A justiça e injustiça não fazem parte do homem em seu estado de natureza. Aí se encontra uma situação de "guerra de todos contra todos". A guerra se origina em virtude de todos quererem as mesmas coisas a qualquer custo. Isto gera o estado de insegurança, medo e de morte violenta.

Ainda em Hobbes (2002), pela situação de insegurança e medo, o homem deseja assegurar a paz e a tranqüilidade. Isso o prepara à passagem do estado de natureza ao estado social, que é a passagem da violência à paz sob a tutela de um Estado soberano regido pela razão.

Tendo em vista algumas idéias filosóficas acerca da justiça, entendemos que o seu conceito aplica-se a forma como concebemos o homem, variando conforme cada caso. Pode o homem possuir uma essência divina na qual é portador de justiça e agir racionalmente, e de forma a praticá-la, sendo verdadeiramente bom e com vontade própria para isto. Em contraste, pode o homem ter uma exacerbada ganância quanto às competições sociais e no individualismo gerando guerra e medo.

Destas concepções resumimos que é provável existir uma essência justa e imanente no homem, contudo é observável a presença de individualismo e competições que levam a insegurança e temor, fazendo com que, há tempos, tenha se instituído o mecanismo controlador do Estado, na tentativa de equiparar os direitos entre os fortes e os fracos. Tal mecanismo sobrepõe a ordem e organização às vontades pessoais do homem, possibilitando um convívio social necessário.

 

As influências

 

            A vida nos mostra quanto adquirimos de experiência para lidar com as suas dificuldades e nos sentimos bem com a idéia de que muito aprendemos e esta experiência sempre servirá para nos afastar dos perigos que existem, contudo, sempre somos pegos de surpresa, apesar de já termos dado tantas amostras acerca de nosso lado experiente. Todos desenvolvemos experiências com o passar do tempo, todavia, para determinadas coisas na vida, nos apresentamos como verdadeiros tolos. Para justificar tais desatinos pensamos até em inocência de nossa parte, mas concluímos posteriormente, em muitos casos, tratar-se de insensatez, parecendo apontar o erro cometido, uma cegueira sem precedentes, como se tivéssemos caído numa armadilha bem arquitetada.

            Observando estas situações desagradáveis e, de acordo com as nossas concepções, tais episódios ocorrem por razão básica: apesar de nossa experiência acumulada, podemos ser enganados e cair em algumas “ciladas”, preparadas por uma ou mais pessoas conforme a situação vivenciada. E, se justificamos estas situações por meio de “armadilhas” feitas por outrem, conseqüentemente aceitamos que exista influência alheia a nós, então, os relacionamentos são capazes de gerar causas e efeitos, de qualquer pessoa a outra.

É importante compreender o conviver humano e suas relações, porque nos coloca em contato com outros aprendizados e cuidados fundamentais, como o bebê que fomos e já precisamos muito da influência e ensinamentos de quem nos cuidou; como da compreensão de quem somos através da referência do outro, pois que se não vivêssemos em grupo, como nos compreenderíamos sem ter com quem nos dar tal resposta acerca de si mesmo? Quem, ou o que seríamos em nossas sensações mais íntimas de auto-reconhecimento? O outro nos dá o desenho de como somos, e é a partir destes conceitos que vamos nos entendendo como gente, de uma forma ou de outra. A convivência grupal e as constantes influências nela existentes são fundamentais para o nosso crescimento e desenvolvimento, nos dando fortes motivos para continuar avançando e evoluindo. A troca das experiências e idéias que cada um carrega consigo é sempre uma forma de dar novos passos na vida e assim, ampliar os horizontes em cada etapa da nossa história como um todo.

            Refletindo melhor, as pessoas causam algum efeito em nós, seja no grau e no impacto que for, portanto, nós observamos que surge com maior clareza, a idéia de responsabilidade como termo essencial nos relacionamentos humanos. Neste conceito devemos ponderar com séria reflexão acerca do que podemos causar nos outros, trazendo à nossa consciência o real valor sobre o que fazemos e causamos.

            Quando tratamos da questão responsabilidade e causa e efeito nos relacionamentos, podemos ver que há o lado externo das influências, onde o outro faz algo para mim e vice-versa, nos colocando, de certa forma, a mercê dos contatos que surgem ao longo da vida, os quais poderão oferecer algo de bom ou de ruim. Por outro lado, existe a parte interna das influências, ou seja, de mim para comigo mesmo. Eu causando efeitos em minha própria vida, pois como haveria de ser possível, que a minha vivência fosse alheia a mim mesmo, e somente passível de influenciar e ser influenciado pelo outro? Mais do que isso, ao causar algo no outro, estaria causando algo também em mim?

           

A origem e o destino do controle social

 

De onde o homem extraiu a essência acerca do controle e das regras, sendo ele um ser profundamente regido pelos instintos naquela época em que iniciou a vida em sociedade? E mais, como conseguiu dar manutenção a esta idéia que deve ter sido profundamente dolorosa no início e que ainda o é nos dias atuais, nas devidas proporções evolutivas? De onde retirou “inspiração” e lógica suficiente para contrapor a sua natureza àquele novo conceito que se apresentava como uma forma de aprisionamento?

O homem pré-histórico, que carregava consigo apenas o instinto animal enquanto suporte defensivo (cérebro anatômico primitivo: arquipálio) e as emoções (sistema límbico anatômico: paleopálio), com o passar do tempo foi adquirindo gradativamente uma formação complexa na esfera da razão, desenvolvendo a sua inteligência lógica (cérebro anatômico racional: neopálio ou neocórtex), por força das necessidades e descobertas que foi empreendendo, como o fogo e os instrumentos de caça, posteriormente a vida em sociedade organizada por distribuição de tarefas na agricultura e criação de animais, surgimento da linguagem, no período conhecido como Neolítico da história da humanidade, e daí por diante, nada mais o segurou na escalada da tecnologia.

Neste momento histórico, onde o homem inicia a sua convivência social, são criadas algumas regras para que a vida em grupo se estabeleça com um mínimo de controle e harmonia, do contrário, seria impossível manter seres com instintos tão animalescos em união.  Daí então surgem forças repressoras com o objetivo de limitar as atitudes que foram sendo consideradas “fora de padrão” conforme o tempo avançava, variando a cada sociedade, que a estabelecia, e até hoje assim o faz, pelos variados comportamentos, enquadrando-os, em muitos casos, em códigos e livros, que por sua vez representam as leis que fundamentam este grande convívio.

As forças ou imposições surgidas para este controle acabaram por gerar enormes conflitos nas pessoas, então passamos a falar sobre a neurose, descrita por Freud (1974), uma vez que se estabeleceu uma luta sem precedentes; de um lado a nossa mais pura forma de ser, a autenticidade do ser primitivo e emocional, e por outro, a necessidade da civilização, necessária para o desenvolvimento e evolução da espécie. Duas forças antagônicas; a natureza e a criação repressora que o homem estabeleceu a si mesmo.

A civilização se impõe ao homem, reduzindo, em contrapartida, a sua felicidade, que é encontrada nas satisfações mais originais de sua existência. As relações sociais são reguladas tendo como base à restrição às liberdades humanas individuais, as quais o indivíduo experimentara antes de viver em sociedade. Essas restrições possibilitam a vida em sociedade, porém, trazem sérias implicações à organização psíquica do ser humano.

Freud (1974), descreve que desde a infância, onde o bebê quer a satisfação de suas necessidades e posteriormente dos desejos (princípio de prazer), deve ocorrer gradativamente a passagem daquilo que é só prazer por aquilo que é realidade, tendo em vista o convívio social e os limites desta mesma convivência (princípio de realidade). A criança que possui, praticamente uma vida sem limites nas suas mais variadas realizações quanto às satisfações próprias, passa a penetrar no universo social das relações, tendo para isso, que limitar a sua prazerosa satisfação anteriormente vivida, o que acarretará em conflito, denominado neurose. Neste período de transição, o ego da criança vai se formando e com isso vai tomando consciência sobre a realidade vivida. Este ego acaba exercendo uma função fundamental enquanto mediador do conflito, procurando oferecer acesso ao prazer ou ao id (instância psíquica presente em nosso aparelho mental), ao mesmo tempo em que precisa controlá-lo, baseado no seu aprendizado externo ou superego (instância psíquica que vai se formando através de conceitos externos), ou seja, aquilo que aprendeu e introjetou sobre os controles de convivência, tais como a moral, o pecado e a educação familiar (Freud, 1974). Caso não seja possível tal mediação, o parelho psíquico acaba tomando diferentes direções, na tentativa de se defender, procurando reduzir as ansiedades causadas por tal descontrole. Contudo, nada passa despercebido ou é permanentemente (no sentido estático) “esquecido” ou “jogado fora”. Destes acontecimentos que aliviam temporariamente, decorrem os conflitos, numa força dinâmica articulada pela parte inconsciente do ego, e que vai fazer ressurgir aquilo que foi banido, porém, o retorno será sob algum disfarce, pelas neuroses, uma vez que não conseguiríamos lidar com a sua forma original, motivo inicial de tal afastamento. Conforme Fadiman (1986), o id é inteiramente inconsciente, o ego e o superego o são em parte. A pessoa nada sabe dos conteúdos dos mesmos e é necessário despender esforços para torná-los conscientes.

A pessoa neurótica nada mais é do que alguém que despende energia demais na tentativa de banir de seu consciente tudo aquilo que o incomoda (reprimir), por ser moralmente inaceitável.

Tendo em vista os aspectos sócio-históricos até aqui trabalhados, cabe ressaltar uma dúvida importante: De onde o homem extraiu a essência acerca do controle e das regras, sendo ele um ser profundamente regido pelos instintos naquela época em que iniciou a vida em sociedade? Como conseguiu dar continuidade a esta idéia que deve ter sido terrivelmente dolorosa e difícil no começo? De onde retirou “inspiração” e lógica suficiente para contrapor a sua natureza àquele conceito inovador que se mostrava como uma forma de prisão voluntária?

Por meio da lógica podemos deduzir que o homem deve carregar em sua essência muito mais do que instinto e pulsão, do ponto de vista do início de sua existência, tanto na pré-história quanto nos dias de hoje, no bebê, que aparenta possuir apenas a pouca estrutura já conhecida e tão bem revelada pela ciência. Ousaremos crer que carregamos algo superior em nossa essência, que nos faz despertar do latente para o manifesto quando em condições propícias ou necessárias, igualmente comparável ao próprio desenvolvimento mental, ou seja, esta totalidade de acontecimentos acaba por ocorrer simultaneamente.

Este atributo humano que se encontra em nossa essência é gerador das idéias e condições de controle fundamentais ao nosso progresso evolutivo, e que por hora, nos tem possibilitado manter algum tipo de convivência, melhor do que a que nossos ancestrais já tiveram. Todavia, não implica na perfeição, e de longe podemos avistá-la, como que sugerindo uma constante luta no intuito de alcançá-la, pois que no momento ainda estamos num período bastante atrasado, que o expressem por si mesmos os acontecimentos do nosso planeta, com as guerras, as múltiplas formas de violência e tamanha valorização no ter em detrimento do ser, observável com facilidade em pleno, mas ainda insuficiente terceiro milênio.

 

O Sistema Psíquico Auto-regulador

 

É possível inferir sobre a existência de um sistema auto-regulador em nosso aparelho psíquico, de cujas funções visam os ajustes de desenvolvimento por meio da justiça. Podemos encontrar em nós mesmos aquilo que é representado externamente e fruto da criação do próprio homem, as essências de determinados papéis, tais como de promotoria (advogado de acusação), advogado de defesa e a sentença (juiz). 

Para todo o pensamento e toda a ação que temos atuamos por meio desses papéis, considerando o grau de evolução em que nos encontramos, e que por hora nos indica uma condição ainda muito inconsciente, quase que turvando por completo a consciência acerca destes mecanismos naturais de ajuste. E, ainda baseado nesta premissa, é possível imaginar que em virtude, justamente deste grau de inconsciência sobre tais acontecimentos psicológicos, as atuações destes papéis de acusação, defesa e sentença são também proporcionais, ou seja, quanto mais levantamos o véu da consciência a este respeito, maior é a atuação em foco.

Considerando esta situação entre um extremo e outro, as possibilidades apontam para uma evolução da consciência que gera maior equilíbrio em nossos pensamentos e ações em detrimento da inconsciência, acabando por perder terreno enquanto elemento gerador destas “injustiças”, que por sua vez acionam a “justiça”, e assim por diante.

Tais atividades psíquicas fazem parte da dinâmica de vida, onde é necessário o constante desenvolvimento humano e sendo assim, é natural que nos mantenhamos ativos, ainda que sem perceber tais estímulos contínuos, para que não seja interrompido este ciclo de aprendizagem, tendo em vista a variação de velocidade que ocorre em cada pessoa.

Contínuas experiências em nossa vida cotidiana nos exemplificam estas atuações auto-reguladoras, onde determinadas situações se nos apresentam “impróprias”, dando-nos a sensação de que haja algo errado existente, uma “injustiça”, porque estamos acostumados a lidar com a justiça pela ótica materialista, onde se paga por aquilo que se faz e, inclusive, se comprova, enxergando a causa (ação injusta evidente) e o efeito (punição), porém, é quase impossível perceber a causa (ação injusta e evidente só no momento em que foi praticada em determinado momento no passado e posteriormente “esquecida”) como a protagonizadora de determinado efeito (punição) no tempo presente, e pior, as “punições” naturais não estão escritas em código algum, portanto, não podemos prever quais serão.

Podemos ainda fazer uma comparação com o famoso provérbio popular: “Aqui se planta, aqui se colhe”, encontrado na natureza. A lei do plantio-colheita é uma força dinâmica que a tudo faz ativar, dando um constante impulso rumo à evolução.

Este sistema psíquico auto-regulador nos coloca frente a uma questão profundamente perturbadora, quando indagamos sobre a atuação do Divino em nossas vidas, a presença espiritual e religiosa do grande poder de criação. Afinal, quem nos regula, pois sempre soubemos que Deus seja na forma que convier para cada crença, é o juiz de todas as questões, e então? Ele nos regula ou nós nos auto-regulamos?

É justamente neste ponto que devemos ponderar e crer que este ser supremo é infinitamente sábio, a ponto de “administrar” as suas criaturas, dispondo nelas tais sistemas de auto-regulação, dispensando, evidentemente, a caderneta e o lápis.

A força que nos impele a auto-regulação, buscando a evolução através das melhorias oferecidas durante a nossa vida denominaremos de narcisismo, descrito por Freud (1977), e, tendo a função de desenvolvimento no homem, desde a época infantil, a qual lhe possibilita a formação de seu ego. 

Encontramos no narcisismo, ainda, uma forma de nos proteger; nos preservarmos. Um gostar de si mesmo que acaba por desencadear formas diversificadas de autoproteção das circunstâncias de perigo encontradas em nossa existência.

O termo narcisismo é encontrado de forma associada à doença, quando alguém tem por objeto a si mesmo, investindo superior energia e tempo no próprio ego, que não no mundo externo, com outras pessoas ou objetos de um modo geral. Nesta situação patológica compreendemos que existe uma exacerbação quanto ao destino de energia pessoal, não conseguindo ser direcionada, equilibradamente, para o ego e para fora.

Na dinâmica de atuação da neurose, vamos perdendo a possibilidade de avançar e nos desenvolver melhor em virtude de estarmos presos e com alto gasto energético nestas demandas, pois que do contrário, poderíamos dispor de mais “espaço” e as nossas energias poderiam se dirigir para outros objetivos a serem alcançados, e não nos que ficaram pra trás. Além disto, durante este mesmo período, arrastamos uma condição inadequada, que nos “pesa” mentalmente, ainda que de forma inconsciente, e que não se aquieta em nosso interior, causando uma dinâmica diferente da que existe na linha do desenvolvimento, e tal conflito causado por um desarranjo de conceitos, faz com que nos coloquemos na busca pela “estrada original” e própria de cada um, (estrada própria da evolução, construída dinamicamente por nós e nela encontramos a nossa referência quanto ao caminhar na vida), porém, conforme acontece esta tentativa, esbarramos em nossas questões mais íntimas a respeito de nossa vontade de fugir às dores e ao trabalho que se fazem presentes nestes casos, gerando novo impasse - há necessidade natural de se retomar o caminho original por ter saído dele, e há a dificuldade que resulta em ter de realizar tal tarefa - então temos duas condições conflitantes, e acabamos por criar uma terceira situação, radical, aquela que nos pune, iguais crianças que precisam do castigo para aprender melhor aquilo que ainda não se instalou bem em nossas vidas, apesar de crescermos enquanto “adultos” pensamos, sentimos e agimos, na maioria, como verdadeiras crianças, as quais precisam satisfazer a todo custo os próprios desejos, haja vista tamanha egocentricidade.

Observemos que quando nos colocamos em condições de sermos punidos, já estamos agindo com a natureza de justiça auto-reguladora, ativando promotor, defesa (para que não sejamos acusados sem contestar a questão fundamental de nossa própria natureza e estágio de desenvolvimento em que nos encontramos) e a sentença que proferiremos num dado momento, colocando a nós mesmos em determinada condição, por determinado tempo.

Nesta linha, insere-se uma discussão sobre a condição masoquista a que nos submetemos quando passamos por toda esta situação auto-reguladora, afinal, quem gosta de sofrer? Ainda mais tal sofrimento ter sido originado por nós mesmos.

Freud (1977), escreve sobre um tipo de masoquismo, o moral, tendo como foco não as questões sexuais, mas o próprio sofrimento, que é o que importa, podendo ele ser causado por poderes impessoais ou pelas circunstâncias. Esta forma de masoquismo nos permite também inferir sobre mais uma peça neste sistema auto-regulador, onde ser punido é o que importa. No masoquismo moral podemos compreender a ação corretiva, ainda que inconsciente, para as “faltas” ou “desvios” por nós cometidos.

Com isso, abrem-se novas possibilidades conforme cada pessoa, originando a chance e a própria recuperação e conseqüente retomada ao caminho original com toda esta experiência encravada na consciência, e ainda, a possibilidade de não suportarmos tal sentença, levando-nos a novo período de conflito e fuga para não lidar com a causa, efeito e o direcionamento dado, contudo, já estaremos naquela condição proferida por sentença própria, porque escapar destas auto-regulações é simplesmente impossível, do contrário, estaria disponível ai uma absurda concessão para o retardo da evolução, que nunca cessa em seu árduo trabalho.

Da mesma forma que a neurose emite sinais de alerta sobre algo conflitante que não vai bem internamente, a condição que se nos apresenta “inadequada” ou “injusta” é também o aviso de que algo não está em ordem em nosso interior; uma  enquanto condição do ponto de vista da satisfação e conflito pessoais e outra sob a ótica da justiça do desenvolvimento.

Mais um ponto pode ser acrescentado a este material, que vem a ser os aspectos positivos, os quais não escapam também a este sistema mental, ou seja, naturalmente encontramos respostas positivas (efeitos) a causas anteriormente geradas, tendo como resultado respostas de similar teor.

 

Conclusão

 

O que podemos propor, a partir das exposições feitas até o momento é que temos em nossas mãos a possibilidade de um melhor controle sobre o que pensamos, sentimos e agimos, devido aos resultados prováveis e decorrentes de cada um deles. Podemos compreender mais claramente sobre os mecanismos naturais que regulam a vida e assim mudar o enfoque de nossa própria atuação, valendo-se desta riqueza de possibilidades, inclusive do quanto podemos evoluir, à medida que damos lugar à consciência, assumindo maior responsabilidade perante o que somos e o que pretendemos enquanto desenvolvimento.

O Sistema Psíquico Auto-regulador encontra-se potencial e disponível congenitamente no aparelho mental. Situação na qual a moral se encontra inseparável da natureza humana. Ela é imanente nas palavras de Tomas de Aquino. O sistema se torna presente de forma ativa e inconsciente a partir do desencadear da formação do conflito entre a natureza presente no homem e da introjeção das regras e códigos morais que cada sociedade apresenta na educação de suas crianças. O Pacto Social, na visão de Hobbes, confere a sujeição do homem às normas estabelecidas, cuja finalidade é a de protegê-lo de seus demais. Estas idéias influenciaram Freud posteriormente, quando escreveu sobre os conflitos da neurose na civilização.

Conforme o conflito vai se estabelecendo, o sistema é acionado enquanto agente responsável pela culpa, punição e conseqüente desenvolvimento. Tal funcionamento não é linear e tampouco ocorre livre de obstáculos, podendo ser adiado e retomado em vários momentos da vida e de diferentes formas em sua aplicação, variando em cada pessoa, conforme a sua capacidade em lidar com tais acontecimentos ou de seu grau de consciência acerca dos valores de justiça internos.

Desde o homem primitivo e sua socialização histórica, este sistema vem se aperfeiçoando numa constituição ininterrupta, acompanhando a evolução em seus graus de desdobramento. Tal fato explica a falha e irregular aplicabilidade e os resultados até o momento obtidos. A justiça resultante deste sistema ainda em construção acaba por carecer de aprimoramento também. Podemos considerar que, diante de nossa atual condição humana, se o sistema estivesse em superior grau de desenvolvimento haveria um choque insuportável e muito provavelmente não toleraríamos tamanha pressão, levando-nos a resultados patológicos de enormes proporções.

O funcionamento se dá por meio da ativação de culpa cometida; seja ela por pensamentos, sentimentos ou comportamentos, a qual cria uma demanda corretiva, tendo por impulso o narcisismo equilibrado, zelador da busca pela perfeição, que a seu turno, aciona o masoquismo moral para efetuar na prática tal ajuste, levando a pessoa a uma determinada sentença por algum período de tempo, a exemplo das situações embaraçosas que nos colocamos sem entendê-las bem. De um lado temos a nossa natureza para defender aquilo, que em contraposição o masoquismo apresenta enquanto culpa, resultando disso, via de regra, a sentença ou punição como veredicto.

O sistema funciona na autocorreção, considerando os fatos cometidos para si e para terceiros, o que não impede que influências externas, vindas de outrem, não interfiram, o que justifica a existência do livre-arbítrio.

Acionamos todo momento nosso sistema de auto-regulação, e cada vez mais, podemos nos aproximar deste entendimento lógico, aumentando a sua consciência e assim modificar os resultados de tudo o que vivemos, uma vez que nos cabe um controle para tal empreendimento, dando-nos a grata opção de causar, como sempre o fizemos, porém, podendo antever os resultados naturais em forma de efeitos, que atualmente se nos parecem absurdos. Desta feita, chegaremos à virtude de um viver ético, de dentro para fora, da forma como descreveu Aristóteles em seu tratado sobre ética.

A neurose civilizadora é parte deste processo e ativação psíquica auto-reguladora, que nos impele, ainda que sem perceber, rumo ao crescimento. O peso de tal responsabilidade não deve dificultar a opção de encarar esta empreitada, uma vez que se abre um novo horizonte, motivando proporcionalmente cada passo dado.

Muitas são as possibilidades desenvolvimentistas de que dispomos e que vamos descobrindo a cada dia, descortinando a obscuridade sobre o entendimento acerca de nós mesmos. Tal e qual a criança que necessita do amparo educador e formador para uma vida de convívio harmoniosa e posteriormente age por ela mesma enquanto um adulto equilibrado; poderemos ser um conjunto além do que hoje representamos, e talvez, sem a necessidade do controle vigente.

Sair do casulo do inconsciente é permitir que a nossa essência se assemelhe a luz da manhã, que vai ganhando espaço sobre a escuridão que é deixada para traz.

 

 

 

Referências bibliográficas

 

AQUINO, Tomás. Seleção de textos. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: Editora da UNB, l985.

FADIMAN, James. Teorias da personalidade. São Paulo: Editora Harbra, 1986.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974.

______. O mal-estar da civilização. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974.

______. Sobre o narcisismo. Rio de Janeiro; Imago Editora, 1977.

______. O problema econômico do masoquismo. Rio de Janeiro: Imago Editora,1977.

HOBBES, Tomas. O Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Sumaré: Martin Claret, 2002.

 

 

 

 

Currículo

 

* Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo e psicoterapeuta; desenvolve projetos e trabalhos para crianças e adultos, tendo por enfoque o autodesenvolvimento e a psicologia preventiva.

E-mail: selfpsicologia@mogi.com.br

Compartir Enviar a menéame  Añadir a tus marcadores de Google  Enviar a noticias Top    Añadir a del.icio.us     Añadir a tus marcadores en Yahoo! 


Publicación enviada por Armando Correa de Siqueira Neto
Contactar mailto:selfpsicologia@mogi.com.br


Código ISPN de la Publicación EpZuAlyupyQoDzhlGi
Publicado Saturday 24 de January de 2004

Ultimas Publicaciones en ilustrados.com


ilustrados.com nace con el fin difundir el conocimiento publicando trabajos de investigación, monografias, tesis, presentaciones powerpoint y afines. Publicar trabajos en ilustrados.com ha alcanzado prestigio y reconocimiento internacional siendo cada vez más el número de académicos, empresas, investigadores, científicos que consultan las publicaciones de nuestro portal.


Administración y Finanzas
Agricultura y Ganadería
Anatomía
Antropología
Arqueología y Paleontología
Arquitectura
Arte y Cultura
Astronomía
Biografías
Biología
Ciencia y Tecnología
Computación e Informática
Comunicaciones
Contabilidad
Deportes y Educación Física
Derecho
Derechos Humanos
Ecología
Economía
Educación
Enfermedades
Estadística
Filosofía y Ontología
Física
Geografía
Hardware
Historia
Ingeniería
Internet
Lenguaje y Literatura
Marketing y Publicidad
Mitología
Matemática y Lógica
Música
Nutrición y Ciencias Alimentarias
Política
Programación
Psicología
Química
Recursos Humanos
Redes
Religión
Salud y Medicina
Sistemas Operativos
Sociología
Software
Turismo
Zoología