Monografias | Dificuldades no relacionamento conjugal ocasionadas pela Síndrome do Comportamento de HospedagemDificuldades no relacionamento conjugal ocasionadas pela Síndrome do Comportamento de HospedagemResumen: Dos variados problemas que afetam a vida conjugal, destaca-se, neste artigo, a precariedade do vínculo afetivo. Ele nasce na formação da personalidade, na infância. Caso a pessoa não tenha formado um grau satisfatório de vínculo, encontrará dificuldades posteriormente nas relações que mantiver. Dos variados problemas que
afetam a vida conjugal, destaca-se, neste artigo, a precariedade do vínculo
afetivo. Ele nasce na formação da personalidade, na infância. Caso a pessoa não
tenha formado um grau satisfatório de vínculo, encontrará dificuldades
posteriormente nas relações que mantiver. Por força do encanto exercido no
período de namoro entre duas pessoas, vários comportamentos ficam ocultos. Na
rotina do relacionamento eles emergem, incluindo a dificuldade de manter o vínculo
afetivo, causando a Síndrome do Comportamento de Hospedagem. Ela vai
distanciando o casal através de comportamentos independentes ao extremo. A
pessoa exerce os papéis cotidianos normalmente, todavia, demonstra frieza e
comporta-se como um hóspede dentro de casa. Neste caso, especificamente, a
precariedade vincular é a causadora deste comportamento, visto ser difícil
para o seu portador manter um contato afetivo que ele próprio não pode
oferecer. A tendência da síndrome é gerar um conflito pessoal e, conseqüentemente,
no casal, que pode acabar se separando. A conversa conjugal é capaz de abrir a
primeira porta para a identificação desta síndrome, bem como buscar ajuda
especializada, objetivando a melhora pessoal e uma vida conjugal qualitativa com
psicoterapia. Palavras-chave:
incompatibilidade, vínculo afetivo, separação, maturidade e psicoterapia. Quando as dificuldades no
relacionamento humano são percebidas, um termo usual para definir estas
circunstâncias é a “incompatibilidade de gênios”. Segundo Michaelis
(2000) o termo incompatibilidade quer dizer: Qualidade de incompatível, que, a
seu turno é: Que não pode existir juntamente com outro ou outrem. Ainda, que não
pode harmonizar-se. E, gênio, significa: Espírito benigno ou maligno que
acompanha a pessoa desde o nascimento até a morte. Ou, modo de ser de cada
pessoa. Nas relações humanas,
sobretudo na vida conjugal, observam-se comportamentos variados. Inicialmente,
evidencia-se o poder do envolvimento e o êxtase exercido pela atração das
partes que se conhecem. Conforme Moraes (2003) escolhemos os nossos pares pelo
comportamento aparente. E, aquilo que queremos para nós depositamos nesse
outro. Durante o período de namoro não nos permitimos ver, realmente, quem ele
é. Com a chegada da rotina no relacionamento torna-se possível conhecer a
pessoa como ela é de verdade. Então, começam a surgir os problemas, haja
vista o fato de iniciar-se uma intolerância com relação aos defeitos do
outro. Há uma considerável lista
de fatores que contribuem para as dificuldades conjugais. Dificuldades
financeiras, diferenças de educação, formação profissional, estilo de vida
e objetivos (ambição, posição social, etc). Problemas sexuais: da ordem orgânica
e psíquica. Infidelidade. Itens pertinentes à estética: beleza física,
idade, etc. Nascimento de filhos ou a sua saída de casa com a maioridade. Questões
relacionadas à personalidade tais como a introversão (presente em pessoas mais
reservadas) e extroversão (presente em pessoas que se expõem mais socialmente)
e problemas psicológicos. Diferenças de credo e fé. Alguns itens desta relação
de componentes desfavorecedores na relação a dois, inversamente, pode servir
de complemento para determinados casais. Deste ponto de vista, têm-se pontos
favoráveis e complementares na relação. Ou seja, não há uma regra universal
para determinar quais são os fatores que levam a separação de casais.
Contudo, a vontade de se cuidar para o outro e tentar compreendê-lo estimula o
interesse pela união. Existe uma complexidade em
se entender o ser humano individualmente, quanto mais na relação com o outro.
Podemos classificar algumas situações de separação de casais ao empregar
termos generalistas como a incompatibilidade de gênios ou as dificuldades
sociais comuns. Entretanto, o que será descrito a partir deste ponto é sobre a
estrutura de personalidade e seus problemas, relacionada à formação de apego
afetivo. Desde bem pequenos os seres
humanos têm a necessidade de cuidados por parte de outrem. Durante o período
de formação da personalidade existem algumas circunstâncias fundamentais a
serem desenvolvidas. O vínculo afetivo é um elemento primordial nesta
categoria. Ele é básico. Do latim, vinculum: atadura, laço, aquilo que
une. O vínculo afetivo descrito
por Brazelton (1988) tem início na gestação. É um processo continuo através
das interações que vão ocorrendo posteriormente. Bee
(1997) relata que o contato imediato após o parto parece aprofundar a
capacidade de a mãe (e talvez também do pai) responder em relação ao bebê.
Alguns psicólogos acreditam que a capacidade de formação de vínculo social
é resultado da maturação e que deve ocorrer algum relacionamento logo no início
da vida da criança se quiser que esta seja capaz de, mais tarde, formar vínculos
significativos.
Estudos de Bowlby (1990) e Hoffman, Paris e Hall (1996) sobre o vínculo
entre mãe e filho ressaltam a importância desta dinâmica afetiva. Eles
descrevem que essa ligação faz parte de um sistema comportamental cuja
serventia esta ligada à preservação da espécie. Tal relação se deve ao
fato de os bebês serem indefesos e incapazes de sobreviver sozinhos. Então, o
apego entre o bebê e o seu cuidador viabiliza uma garantia a esta proteção e
preservação.
Através da experiência de uma criança que recebe apoio e cooperação
de sua mãe e também do pai, é capaz de gerar nela a crença na utilidade dos
outros. Tal fato favorece um modelo para formar relacionamentos futuros. A forma
pela qual a pessoa reage aos mais variados eventos da vida, tais como as rejeições,
perdas e separações, depende da forma como foi estruturada a sua personalidade
(Bowlby, 1990).
Recentemente, vemos um número cada vez maior de filhos sendo criados com
pouca presença da mãe e/ou do pai, e ainda, na ausência total deles. O fato
de uma criança não ser criada por pais biológicos, não implica, exatamente,
em problemas psíquicos posteriores, considerando-se o suprimento básico de
suas necessidades. Entretanto, a questão central é o vínculo afetivo. O que
tem se tornado ausente durante a estruturação da personalidade infantil é uma
relação que possibilite maior vinculação de pessoa a pessoa. Contatos
superficiais onde a preocupação localiza-se em prover a criança com
alimentos, moradia e escola são insuficientes. E, ainda, relacionamentos onde
existam muitas mudanças geográficas e/ou trocas constantes de cuidadores
dificultam a formação do vínculo.
Segundo Winnicott (1993), a atenção
que as mães têm para se dedicar a seus filhos, atendendo às suas necessidades
de alimentação, higiene, carinho ou o simples contato, gera condições necessárias
para que se produza o sentimento de unidade entre duas pessoas.
É relevante incluir que na formação vincular faz-se necessário o ato
de tocar a criança. Conforme as conclusões de Siqueira (2003), “(...) tocar
carrega em si numerosos benefícios em forma de estímulos que geram um melhor
desenvolvimento físico, emocional e social, potencialmente gerador de uma
personalidade terna e amável no adulto posteriormente”.
Encontramos em Adler (1937) a afirmação de que todas as pessoas
constroem o desejo de possuir provedores que atendam às suas necessidades e carências
que a vida impõem. Na figura de quem provê, a criança formará a medida de
sua saúde mental futura.
Maturana e Rezepka (1999) ressaltam a dinâmica emocional que envolve as
pessoas, fazendo-as preservar a dinâmica relacional amorosa da infância na
vida adulta como referência a respeito das transformações corporais e
relacionais, resultando no ser humano que somos.
Ao observar os conceitos sobre o vínculo afetivo, bem como as suas
implicações no ser humano, é possível prospectar formas favoráveis e
desfavoráveis de relacionamento ao longo da vida. Se a formação da
personalidade de uma pessoa contar com a existência de um vínculo precário,
torna-se incompatível a existência de um relacionamento conjugal. Em relatos
clínicos obtêm-se históricos onde o marido ou a esposa não tiveram essa
formação vincular com os seus pais. Posteriormente, na vida a dois, encontram
dificuldades em manter o relacionamento por falta desta condição vincular.
Muitos obstáculos nas relações humanas estão ligados a esta
precariedade de vínculo. O casal não consegue perceber este tipo de deficiência
em seu relacionamento. Focaliza os problemas em outras questões, ou ainda,
prefere nem tocar no assunto. Há casos em que ignora a possibilidade de lançar
mão de uma psicoterapia. E, existem situações em que a resistência impera.
Fato comum é dizer que não se precisa de tratamento algum, pois que as
dificuldades são de outra ordem. Todavia, perde-se a chance de resolver na
causa os efeitos de uma convivência difícil.
Nestes casos, especificamente, onde houve uma deficiência na formação
de vínculo e as decorrências comprometem os relacionamentos subseqüentes,
denominar-se-á Síndrome do Comportamento de Hospedagem ou SCH.
No relacionamento de um casal onde há a presença da SCH, quando entra
na rotina da convivência, faz surgir um novo tipo de comportamento. Ele é
extremamente prejudicial. A pessoa age, inconscientemente, de forma semelhante a
um hóspede dentro de sua casa. Realiza as suas atividades comuns. Mantém a
comunicação e os hábitos rotineiros, inclusive os financeiros. No entanto, a
sua forma de ser e estar apresentam um novo item: a frieza ocasionada pelo
distanciamento. Aos poucos vai agindo como se fosse alguém que está hospedado
na casa, cumprindo com alguns papéis pertinentes, todavia, trata as questões,
antes parcimoniosas, de forma independente. Deixa as responsabilidades,
sobretudo as domésticas, para o outro cuidar. Onde havia uma atmosfera de
cordialidade e doçura, passa a existir um espectro de isolamento e pesar. O
outro vai percebendo, sensivelmente, as diferenças no tratamento recebido e
acaba por se sentir, pouco a pouco, só. A sensação deste isolamento
origina-se na forma pela qual a ausência do vínculo se manifesta nesta relação.
As discussões passam a
existir com uma freqüência crescente em virtude do mal-estar alojado e da
falta de compreensão acerca da síndrome. Os conflitos podem surgir e
avoluma-se no processo bola-de-neve. A pouca consciência a respeito da SCH
provoca a discórdia entre o casal, atingindo quem estiver por perto nesta
convivência, via de regra, os filhos. Lembranças e cobranças de como a vida
conjugal era boa anteriormente são lançadas no calor das discussões. Isto faz
aquecer ainda mais o desentendimento. Esta é uma situação estressante para o
casal, podendo levar os seus envolvidos à depressão e outros males. E, carrega
a possibilidade de desencadear a separação. São duas polaridades se
confrontando. De um lado, a ausência de vínculo, a vida isolada. De outro, a
força presente da relação a dois. Os compromissos da união “pressionam”
o contato mais íntimo da esfera afetiva. Caso ela não exista, torna-se um
problema permanente. Este comportamento de
hospedagem reflete o quanto o seu portador, inconscientemente, procura manter
distância afetiva do outro para que não haja envolvimento. Caso ocorra uma
separação, desta forma, evitar-se-á o sofrimento de uma provável desvinculação.
A despedida neste tipo de relacionamento demanda apenas a retirada de bagagens. Por
se tratar de uma síndrome enraizada na formação vincular faz-se necessária
uma avaliação diagnóstica. Além de indicar tratamento através de
profissional especializado nas relações familiares. Este especialista ocupa-se
em compreender as relações conjugais e também a formação do vínculo como
peça fundamental nas mudanças terapêuticas necessárias. Na descrição de
Gaudêncio (2003), a terapia é o melhor atalho para o autoconhecimento, gerador
de crescimento. Em uma das fases da terapia de casal, o cuidado está no vínculo,
o qual permite uma continuidade na relação. Com os avanços possíveis os cônjuges
podem estabelecer novo olhar sobre a relação, investindo energia na construção
vincular. O sofrimento causado pela Síndrome
do Comportamento de Hospedagem modifica o foco energético dos investimentos
psíquicos. Ou seja, ao invés das pessoas empregarem as energias e esforços no
convívio, utilizam tais recursos na manutenção do isolamento. Soma-se a esta
condição o desgaste ocasionado pelo conflito entre as polaridades (ausência
vincular e a necessidade do elo afetivo), além dos resultados nefastos,
colhidos após as discussões familiares. Há uma sensação de impotência e
frustração perante os fatos, que ganham, cada vez mais, uma dimensão que
sinaliza o triste fim da vida a dois. Não raro, crê-se que a síndrome
nasceu dentro do relacionamento. Todavia, ela, apenas, foi desencadeada durante
o convívio. O seu portador não enxerga o problema já antigo, Brazelton
(1988), Bee (1997), Bowlby (1990), Hoffman et al (1996), Winnicott (1993),
Siqueira (2003), Adler (1937) e Maranata e Rezepka (1999).
É possível comparar relações anteriores a atual e sentir que há algo
semelhante nelas. Contudo, é insuficiente para entender e aceitar a síndrome e
a sua demanda por tratamento. O jogo de culpa é apenas um instrumento para se
defender, na tentativa de diminuir as péssimas sensações que ganham terreno
no cotidiano. De nada adianta. Só aproxima o casal da separação. Separar, por
sua vez, traz de volta o estado de isolamento requerido pela síndrome. Porém,
ao mesmo tempo, causa dor e sofrimento. O que se acreditou ser bom anteriormente
enquanto manter uma gostosa e importante relação familiar transforma-se em um
pesadelo aterrador com a ruim convivência e a separação. Buscar ajuda especializada
é o remédio para este mal. Crer numa solução de poucos recursos como o
esperar o tempo como agente de mudanças é dar oportunidade para que se instale
a piora da SCH. Uma boa avaliação psicológica pode dar novos rumos às vidas
das pessoas que pretendem o convívio. Respeitando-se as individualidades e
construindo relações afetivas, conforme Bowlby (1990), que sustentem os
dissabores que a vida se encarrega de apresentar a todos, sem exceção. Dialogar, e, entenda-se
bem, conversar com o coração aberto, oferece uma primeira abertura para se
compreender a vida do casal. Dar o primeiro passo pode modificar aquilo que já
era considerado algo inevitável, como a separação. Empreender esta tarefa não
é simples. Requer coragem e vontade para mudar. Aceitar os problemas e lutar
para transformar o prejudicial em saudável. Há uma necessidade de crescimento
por parte das pessoas envolvidas. O grau de maturidade determinará o quanto se
quer conviver bem. Ambas as partes devem estar dispostas e comprometidas em
participar deste processo, apoiando-se. É preciso administrar os
problemas existentes dando lugar ao desenvolvimento qualitativo de vida. Isto se
dá de dentro para fora. Leva tempo, entretanto, deve-se considerar que os
resultados, conforme a vontade empregada no processo, trarão maior liberdade
para viver, individualmente e de forma conjunta. A Síndrome do Comportamento
de Hospedagem nos prende a circunstâncias de isolamento, contrariando e
causando dor diante dos nossos desejos de vida familiar. Cuidar da questão,
alterando o comportamento de hospedagem para o de comprometimento afetivo em
conjunto permite existir a unidade fundamental das relações conjugais: a
dependência equilibrada e necessária do vínculo. Vale a pena lutar com
vontade, ajuda e conhecimento. ADLER,
Alfred. O sentido da vida.Cidade do México: Editora Paidós,
1937. BEE,
Helen. O ciclo vital. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1997. BOWLBY,
J. Trilogia Apego e Perda. Volumes I e II. São Paulo. Martins
Fontes, 1990. BRAZELTON,
T. O desenvolvimento do apego. Porto Alegre: Editora Artes Médicas,
1988. GAUDÊNCIO,
Paulo. Terapia de casal reforça vínculo. Internet, disponível
em: www.odia.ig.com.br/odia/odiad/cd271125.htm.
Acesso em 03/12/03. HOFFMAN,
L.; PARIS, S. e HALL, E. Psicologia del dessarrollo hoy. Madrid:
Editora MC Graw Hill, 1996. MATURANA,
R. Humberto e REZEPKA, Sima Nisis. Formación humana y capacitación.
Chile:Dolmen
Ediciones, 1999. MICHAELIS.
Minidicionário
escolar da língua portuguesa.
São Paulo: Companhia
Melhoramentos, 2000. MORAES,
Carmen Lúcia. Por que os casais se separam? Internet, disponível
em: www.saudenainternet.com.br.
Acesso em 01/12/03. SIQUEIRA,
Armando Correa Neto. A importância do ato de tocar. Internet,
disponível em: www.psicopedagogia.com.br.
Acesso em 27/10/03. WINNICOTT,
D. W. A Família e o Desenvolvimento Individual. São Paulo.
Martins Fontes, 1993. *Armando
Correa de Siqueira Neto é psicólogo e psicoterapeuta. Desenvolve treinamentos
organizacionais e palestras com Psicologia Preventiva e eventos educacionais.
E-mail: selfpsicologia@mogi.com.br.
Publicación enviada por Armando Correa de Siqueira Neto Contactar mailto:selfpsicologia@mogi.com.br Código ISPN de la Publicación EpZulkuyyEniBJJESS Publicado Thursday 22 de January de 2004 Ultimas Publicaciones en ilustrados.com
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